quinta-feira, 10 de março de 2016

Gringos contam como foi se adaptar ao estilo brasileiro no trabalho




Conhecer e compreender as expectativas do gestor imediato é uma das melhores estratégias de relacionamento que os profissionais de Secretariado podem adotar. Já imaginou quanto tempo perdemos argumentando, esbravejando e contestando decisões que nossos gestores tomam, sem ao menos pensar e avaliar os motivos? 

Todas as oportunidades que tive de assessorar um expatriado, busquei, antes de tudo conhecer seus valores, costumes, hábitos e crenças. A partir dessa relação que se estabelece todo o resto flui. Mas a regra também é oportuna para atuar com Gestores Brasileiros com hábitos e costumes tão particulares de cada região do País. 

A matéria publicado na revista Você S.A apresenta a percepção de alguns estrangeiros sobre o Brasil. Observe que aquilo que para nós é "normal" para eles não é bem assim. 

Olhar estrangeiro: veja relatos de quem veio de fora para trabalhar no Brasil 

Há cada vez mais estrangeiros trabalhando no Brasil. Só nos últimos três anos o número cresceu 50%, segundo estudo divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego em março. E parte dessa força de trabalho vem para comandar grandes empresas. Em 2014, 1 433 autorizações foram concedidas para que gringos ocupassem cargos de direção no país. Uma das razões para esse movimento é que as empresas carecem de gente experiente para profissionalizar práticas e entregar resultados rapidamente. "O Brasil está transformando os processos de gestão e precisa de pessoas que tenham vivência nessa área", diz Carla Rebelo, diretora-geral da Hays, consultoria de recrutamento com sede em São Paulo - ela própria de origem portuguesa. 

Como há pressa em contratar, muitos se mudam sem ter ainda aprendido o português ou conhecer o país, o que é um desafio para eles e para as equipes. "Há resistência no começo, mas isso é superado quando as diferenças culturais são respeitadas", diz Carla. VOCÊ S/A entrevistou quatro presidentes que vieram de outros países para entender como eles enxergam o jeito do brasileiro trabalhar - e como vêm se adaptando à gestão de nosso gingado. 

Gelo para esquimós 
Stefan Nilsson, 45 anos, da Suécia, CEO da Nespresso no Brasil 

"Vender café no Brasil era como vender gelo para esquimós. Foi isso o que pensei quando fui chamado, em 2006, para trazer a Nespresso ao país. Na época, morava na Suíça e era o engenheiro responsável por ter aberto a primeira fábrica da marca no mundo. Aceitei o convite pelo desafio. Já tinha trabalhado em companhias como Tetra Pak e Nestlé, mas seria a primeira vez que abriria uma empresa, e não uma fábrica. Para fazer a Nespresso crescer, ficou claro que não poderíamos só lançar um café, teríamos de criar uma experiência. Essa estratégia exigiu negociações, porque preparar um bom espresso é fácil, mas preparar 1 milhão é outra história. Tivemos de introduzir novas práticas nas fazendas de café pensando em resultados para dali a cinco anos. Mas, quando a gente acredita no que faz, as coisas acontecem. O que aprendi morando em tantos países (já vivi na Alemanha, Malásia, Espanha e Colômbia) é que a cultura deve ser respeitada. Em alguns lugares, tudo bem falar: `Faça isso agora!'. Tentei ser enfático e disse: `Quero isso na segunda-feira!'. Boa sorte para quem fizer isso no Brasil! O prazo não será respeitado, e o profissional vai perder tempo encontrando desculpas para justificar o atraso. Agora dou direcionamento e autonomia. Os brasileiros me ensinaram que, às vezes, você não sabe como vai executar uma ideia, mas, que se sabe aonde quer chegar, vai achar o caminho." 


Calor tropical Márta Sanchez, 39 anos, da espanha, Country manager da Iberia e British Airways no Brasil 

"Meus primeiros meses no Brasil dariam um livro. Cheguei em janeiro de 2014, época em que as ruas viviam cheias de gente protestando. Uma cena me marcou. Eu via uma manifestação da janela do meu escritório, na avenida Paulista, em São Paulo, e, de repente, reparei em um helicóptero parado no semáforo, ao lado dos carros. Nunca vou me esquecer disso. Para a Iberia e a British Airways o momento era bom: a Copa do Mundo aumentou a demanda por voos, e o novo terminal internacional do Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, foi inaugurado, ampliando nossas rotas. Foi minha primeira experiência profissional fora da Espanha. Duas coisas me assustaram: a burocracia (vocês têm papel para tudo) e o contato físico (não estava acostumada a tanto beijo e abraço até nos e-mails). Pedi para ir com calma. Agora já sou mais carinhosa, até minha família percebe isso. Talvez por causa dessa receptividade os brasileiros fiquem magoados com facilidade - preciso ser mais cuidadosa ao fazer críticas. E a palavra `não¿ está fora do vocabulário por aqui. A sensação é de que tudo é possível, mesmo quando não é. Por isso, tento sempre confirmar e alinhar as expectativas - conversando em `portuespanglês': uma mistura de português, espanhol e inglês. Tem funcionado bem." 


País de atacantes Toru Okazaki, 49 anos, do japão, Presidente da Nissin-Ajinomoto no Brasil 


"Assumi a presidência da Nissin-Ajinomoto no Brasil em 2013, com a missão de expandir o alcance da empresa no país. Mas cheguei a São Paulo em 2009, com minha mulher e duas filhas, como gerente de marketing da empresa. Vim para cá sem falar português e sem conhecer nada do país. Tinha a impressão de que seria uma festa todos os dias, pela fama de alegre dos brasileiros. Percebi que as pessoas são felizes, mas que também levam o trabalho a sério e são gentis. Nos meus primeiros dias, todos vinham até minha mesa me cumprimentar. O que me surpreendeu de verdade foi o carinho de vocês pelo Miojo: todo mundo tem a própria receita do macarrão. Esse lado afetivo me marcou. Costumo dizer que, no trabalho, os brasileiros são atacantes, e os japoneses, zagueiros. No Japão, analisamos objetivamente os fatos para prever todos os riscos e só então pensar na próxima etapa. No Brasil, usam mais a intuição: acreditam nela e vão com força total. Minha tarefa foi harmonizar esses dois lados. Primeiro, tentava convencer minha equipe a parar e decidir, com antecedência, todo o passo a passo. Não deu certo. Passei a esperar tudo ser feito. Quando acontecia algum problema, mostrava que aquilo poderia ter sido previsto e evitado. Fico aqui até 2016, quando acaba meu contrato como presidente no Brasil, mas minha família voltou em 2013. Como minhas responsabilidades aumentaram e uma das minhas filhas entrou na faculdade, todos retornaram ao Japão." 

Café e pão de queijoSantiago Chamorro, 45 anos, da Colômbia, Presidente da GM no Brasil 

"A combinação perfeita é o café colombiano com o pão de queijo brasileiro. Na vida e no trabalho. Colombianos e brasileiros têm pontos em comum: alta energia, vontade de vencer desafios e coragem para fazer acontecer. Aprendi isso em 2003, na minha primeira fase por aqui, como diretor de marketing da GM. Estava na empresa há 22 anos, mas vir ao Brasil me deu frio na barriga: em um mês, vocês vendiam o que eu vendia em um ano na Colômbia. Voltei em 2012, depois de ter assumido a presidência da GM na Colômbia. Uma das qualidades do brasileiro pode ser também um problema: vocês são criativos e conseguem dar um jeito de solucionar vários problemas usando recursos que estão à mão, só que, às vezes, isso é feito com pouca transparência. Mas há muito o que aprender por aqui. O Brasil é um monstro e tem a fama de ser uma tremenda escola para profissionais. Agora não será diferente: meu desafio é retomar o crescimento e a confiança dos investidores neste momento de crise. É difícil, mas estou otimista." 

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