sexta-feira, 9 de maio de 2014

Os CEOs não são mais os grandes heróis

Entre os posts publicados aqui no BLOG já comentei alguns livros do jornalista Malcolm Gladwell. Dos três trabalhos que li do autor: O Ponto da Virada, Blink e Fora de Série posso dizer que com uma linguagem muito simples ele apresenta raciocínios complexos e desafia o senso comum. Recentemente Gladwell publicou seu 5o livro, que já está na minha lista de futuras leituras. 

Veja abaixo, que interessante, a entrevista publicada no site do Valor Econômico sobre o autor e seu novo trabalho:

Malcolm Gladwell não trabalha como consultor de empresas, não oferece serviços de coaching para executivos nem leciona em escolas de negócios. Mas frequentemente é citado como um dos maiores pensadores de negócios da atualidade. Ele já foi eleito um dos 50 gurus mais influentes da administração pela “Harvard Business Review” e uma das cem pessoas mais influentes do mundo dos negócios pela revista “Time”. Jornalista de formação e por muitos anos colaborador da prestigiosa “The New Yorker”, Gladwell lançou recentemente seu quinto livro, “Davi e Golias – A Arte de Enfrentar Gigantes” (editora Sextante), mais uma vez best-seller nos Estados Unidos.

Em entrevista por telefone, o escritor explica que seu sucesso vem do fato de tentar enxergar as coisas por diferentes ângulos, usando analogias e referências diversas para contar histórias. “Gosto de ajudar as pessoas a compreender o que acontece a sua volta sob outros pontos de vista”, afirma. Palestrante dos mais requisitados, Gladwell já se debruçou em diferentes casos tentando entender como, quando e por que determinadas empresas, produtos, serviços, executivos e até artistas fazem sucesso, enquanto outros fracassam. Em sua opinião, uma das habilidades mais importantes de um CEO hoje é ter humildade para ouvir as pessoas e compartilhar a liderança. “Passamos os últimos 20 anos transformando os CEOs em heróis, como se o mundo todo dependesse deles. Agora, são eles que precisam entender que dependem de seus funcionários.” A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: O senhor é considerado influente pensador do mundo dos negócios. No entanto, seus livros tratam de temas variados e seu histórico é diferente dos outros nomes, bem mais tradicionais, que compõem essas listas. Como isso aconteceu?

Malcolm Gladwell: É justamente por não enxergar as coisas do mesmo modo que eles. Algumas pessoas estudam exaustivamente um determinado tema, tornam-se especializadas e depois compartilham suas teorias e descobertas. Outras analisam o mundo por diferentes ângulos e trazem novas perspectivas para o que já está aí. É isso o que faço. Sou um “forasteiro” que usa analogias, referências e conexões diversas para contar histórias. Gosto de fazer as pessoas pensarem, de ajudá-las a compreender o que acontece a sua volta sob outros pontos de vista.

Valor: É o que o senhor faz no seu livro mais recente, “Davi e Golias”?

MG: Sim. Todos conhecem esta história, mas ela sempre foi contada do jeito errado, como a vitória improvável de um azarão. Isso porque Golias tinha mais de dois metros de altura, estava coberto de armaduras e empunhava armamento pesado para a famosa batalha entre eles. Davi, por sua vez, era um jovem pastor que carregava consigo apenas algumas pedras e uma funda, que é uma arma parecida com um estilingue. Uma análise mais cuidadosa, porém, revela que, naquele contexto, todas as vantagens de Golias de repente se tornaram desvantagens, e vice-versa.

Valor: Como isso aconteceu?

MG: Golias era um soldado de infantaria, preparado para um combate corpo a corpo. Ele esperava enfrentar outro guerreiro parecido com ele e não um jovem pastor. Rapidamente, Davi atirou uma pedra de longe com sua funda, que atingiu Golias na testa com uma força devastadora, fazendo-o cair inconsciente. Então, correu até ele e, com uma espada, cortou sua cabeça. A lição básica aqui é que os gigantes nem sempre são tão fortes e poderosos quanto parecem e, às vezes, um garoto pode ter uma pedra no bolso.

Valor: Qual o paralelo que o senhor faz dessa visão da história com o mundo corporativo?

MG: Tanto as empresas quanto seus profissionais geralmente dão muita importância para os recursos materiais e os relacionam de forma exagerada com o sucesso. Grandes companhias se sentem seguras com seu tamanho, estrutura e poder, mas se esquecem dos recursos intangíveis, que dependem do comportamento e da atitude das pessoas que trabalham nela. Davi não estava equipado da forma como se esperava para enfrentar Golias, mas tinha criatividade, audácia, determinação e uma boa estratégia.

Valor: É possível dizer também que startups criadas por jovens estudantes são como Davi, que podem derrotar algumas multinacionais representadas na figura de Golias?

MG: A analogia é boa, pois isso realmente tem acontecido. Ao olharmos para o mercado, no entanto, vemos que as grandes empresas já estão preocupadas em se tornarem mais ágeis e flexíveis para poder acompanhar a velocidade com que as mudanças estão ocorrendo. Se não fizerem isso, correm o risco de se tornarem lentas, previsíveis e burocráticas – e, em algum momento, serem surpreendidas e derrotadas.

Valor: No livro “O Ponto da Virada”, o senhor afirma que, para um produto ou serviço “decolar”, são necessários três perfis de pessoas: experts, comunicadores e vendedores. Como isso acontece?

MG: Todos os três desempenham um papel essencial para que algo entre na moda ou vire uma “epidemia”. Os experts identificam novas tendências e fornecem a mensagem para os comunicadores, que se encarregam de espalhá-la. Os vendedores convencem as pessoas a aceitá-la. Isso não significa que você precisa ter os três perfis dentro de sua equipe. As melhores companhias são aquelas em que os consumidores criam uma espécie de comunidade. Com as redes sociais, por exemplo, eles assumem cada vez mais o papel de comunicadores. Se eles gostam de um produto ou de um serviço, fazem propaganda e viram divulgadores disso gratuitamente.

Valor: Quais as maiores mudanças no mundo dos negócios nos últimos anos?

MG: A internacionalização mudou a dinâmica dos negócios e as relações de trabalho. O fato de que as melhores ideias podem vir de qualquer lugar, e de qualquer pessoa, traz consequências enormes para as corporações. A ausência de fronteiras exige que os líderes tenham a mente mais aberta e estejam atentos ao que acontece fora de seus muros.

Valor: Que outras habilidades são essenciais para os CEOs atualmente?

MG: Eles precisam lidar com um mundo extremamente veloz e complexo. É essencial que sejam colaborativos. Precisam ouvir o máximo de pessoas possível, conhecer diferentes visões e diferentes culturas. Passamos os últimos 20 anos transformando os CEOs em heróis, como se o mundo todo dependesse deles. Agora, são eles que precisam entender que dependem de seus funcionários.

Valor: O CEO precisa, então, ser menos autoritário e mais influente?

MG: Sim. Ele consegue isso quando deixa de enxergar a liderança como algo pessoal ou como missão individual, e passa a atuar como se fizesse parte de um time. Um gestor não pode mais achar que entende de tudo, levar em conta apenas sua percepção sobre as coisas e decidir sozinho. O bom CEO entende que a liderança é uma responsabilidade coletiva. Ao agir em grupo, vai trazer para o seu lado pessoas que pensam como ele, que compartilham os mesmos objetivos e estratégias.

Valor: Isso também torna os funcionários mais motivados e engajados?

MG: As pessoas são motivadas por coisas que vão além do dinheiro, inclusive os CEOs. Embora eles sejam muito bem pagos, é o desafio de conquistar novos mercados, aumentar o número de clientes ou lançar um produto inovador que os faz querer continuar. Aumentar salários e bônus não garante mais produtividade ou resultados melhores, embora seja essencial remunerar todos adequadamente. Para motivar os funcionários é preciso identificar o que gostam de fazer, em quais tarefas eles se saem melhor e no que acreditam. Ainda existe um caminho longo pela frente neste sentido.

Valor: O senhor critica os processos de recrutamento nas empresas. O que há de errado com eles?

MG: De maneira geral, os recrutadores estão apenas interessados nas coisas que o profissional já fez. Isso envolve experiências anteriores, competências técnicas, certificações e títulos acadêmicos como o de MBA. São fatores fáceis de avaliar, o que traz certa segurança às empresas. Seria mais interessante, porém, descobrir o que essa pessoa pode fazer, o seu potencial de realização. Para isso, é preciso prestar atenção nas habilidades comportamentais como entusiasmo, curiosidade, capacidade de aprender, de resolver problemas e de lidar com novos desafios. Os recrutadores devem se perguntar como esse profissional se encaixa na cultura da companhia e se tem o perfil adequado para o cargo e para lidar com todas as relações intrínsecas a ele.

Valor: Como os líderes podem tomar decisões melhores?

MG: O trabalho de um líder deveria começar com um exercício de humildade. A primeira coisa que deveria fazer é se perguntar “o que eu não sei?” e “quem eu preciso ter ao meu lado para me ajudar?”. A partir daí, buscar essas pessoas e começar a construir seu time, exercendo uma liderança colaborativa. Isso o levará a tomar decisões mais acertadas. É fundamental, contudo, ter humildade para esse exercício, o que para um CEO pode significar um desafio e tanto.

Valor: Qual executivo o senhor admira e por quê?

MG: Pelas razões que acabei de mencionar, eu diria Michael Lynton, CEO da Sony Entertainment. Ele raramente aparece no noticiário e costuma colocar sua equipe no centro das conquistas e dos projetos da companhia. Seu objetivo é fazer com que as pessoas possam se desenvolver e brilhar, dando a elas responsabilidades e as desafiando nesse sentido. Essa humildade é rara em um CEO, especialmente na indústria em que ele está inserido.


FONTE: http://www.valor.com.br/carreira/3542342/os-ceos-nao-sao-mais-os-grandes-herois




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