sexta-feira, 4 de abril de 2014

Seu currículo vai muito além do papel

Vale a pena refletir sobre o assunto!



Luiz é recrutador da empresa XYZ. Ele estava com a responsabilidade de contratar um determinado especialista para a empresa e, de repente, após 6 meses de longa busca no mercado, chegou em suas mãos um currículo que parecia ser a salvação da lavoura.

O candidato se chamava Eduardo. O currículo mostrava um nível super adequado de formação. Ele tinha experiência internacional, tendo atuado em duas empresas na Europa. Eram experiências curtas, é verdade, mas significativas. Eduardo se dizia autodidata, com disponibilidade para viajar bastante, capacidade para liderar times multifuncionais, sólido conhecimento em planejamento e perfil empreendedor.

Luiz pensou: "Ótimo, agora só falta uma coisa". E seguiu para o passo seguinte que era verificar a presença do candidato na internet. Isso agora é rotina na empresa de Luiz. Ele constatou que Eduardo era contribuidor de dois blogs nos quais escrevia sobre as áreas em que atua, sempre com boas e inteligentes colocações. Luiz sorriu, o candidato parecia perfeito. Porém, em questão de minutos, ele também descobriu que Eduardo tinha presença em vários outros meios na web. No Facebook, Eduardo contava as suas aventuras nas baladas da noite surgindo em algumas fotos com bebida alcoólica nas mãos, algumas delas em que ele parecia estar bêbado. No Twitter ele escrevia sobre qualquer coisa, muitas vezes usando palavrões e satirizando o comportamento de pessoas públicas, como artistas e políticos. Vasculhando um pouco mais, Luiz encontrou citações dele em alguns blogs e fóruns onde ele falava mal do empregador, inclusive contando alguns fatos internos das empresas onde trabalhou.

Luiz apresentou na empresa o currículo e o que achou na internet sobre o candidato. Aconteceram três reuniões sobre o caso, com discussões acaloradas, cuja conclusão foi a seguinte: "apesar do candidato ter o perfil profissional desejado, ele não atende ao perfil de pessoas que queremos ter dentro da empresa. Vamos continuar procurando outros candidatos".

Luiz telefonou ao candidato e explicou o ocorrido, falando com todo o tato possível. Eduardo alegou que a empresa investigou sua vida particular e que isso não havia sido legal. Luiz disse que ele estava enganado, que tudo que a empresa havia levantado era público, afinal tinha por base os registros e rastros que o próprio candidato havia deixado na web. O candidato se sentiu punido injustamente, dizendo que concordava que escreveu algumas coisas inadequadas na rede, mas que estava o tempo todo tentando apenas ser engraçado. Para ele, nada daquilo deveria ser levado a sério, pois havia sido apenas uma brincadeira.

O caso é complexo, apesar de simples. Existe uma distância enorme de percepção entre o que a empresa e Eduardo pensam. Para a companhia o caso é grave, pois Eduardo é bom profissional, porém com questionável comportamento pessoal. Para o candidato, aquilo tudo na web era só uma brincadeira sem importância. O caso acima é verdadeiro. Obviamente que todos os nomes foram trocados. Situações como essa devem estar ocorrendo aos montes dentro das empresas.

Uma pesquisa conduzida pela Robert Half há dois anos mostrou que 44% das empresas brasileiras usavam redes sociais para avaliar candidatos. 39% delas afirmaram que falariam com o candidato antes de decidir sobre a contratação. Mas, o dado que mais me chamou a atenção foi saber que 17% das empresas brasileiras disseram que não deixariam de contratar um candidato com ótimo currículo devido a alguma informação negativa ou foto inadequada em seu perfil no Facebook, Twitter ou Orkut. Essa pesquisa ouviu 2.525 profissionais de 10 países. O Brasil e a Itália aparecem na pesquisas como as nações em que os empregadores são mais influenciados pelas redes sociais na hora da contratação. A pesquisa já tem um tempo, portanto se extrapolarmos para os tempos atuais alguns números vão mudar. Certamente o número de empresas que usam redes sociais para buscar e avaliar candidatos aumentou muito. Todas fazem isso.

Acredito fortemente que os currículos, como conhecemos hoje, estão com os dias contados. Num curto espaço de tempo os recrutadores vão obter os perfis dos candidatos diretamente na web, analisando os rastros e comportamento deles na internet de maneira muito mais rigorosa e profissional do que fazemos hoje. Sistemas e ferramentas de análises de dados cada vez mais sofisticados estão ficando disponíveis e serão usados para isso. Aliás, isso já está acontecendo, mas o processo vai se acelerar e será dominante nos próximos anos. Não tem como escapar. Portanto, cada um de nós deveria traçar uma estratégia de presença na rede, ali é um arquivo vivo de nossas preferências, valores e crenças. Pense na forma como você se expõe, especialmente para aqueles que não conhecem você pessoalmente. E, atenção, tudo que a internet capturar não dá para apagar.

Pense no currículo como uma peça de propaganda individual. É você falando sobre você mesmo, exaltando as suas qualidades e omitindo as suas fraquezas e/ou debilidades. Ele funciona exatamente como uma peça publicitária de um produto ou serviço. Em que você acredita mais? Na propaganda que você vê na revista e na TV ou na opinião de seus amigos publicadas nas redes sociais e nas conversas de fim de dia? Pesquisas mostram que as pessoas acreditam muito mais no feedback das pessoas do que no marketing das empresas. Aplique este mesmo conceito para o seu currículo. Você acha que o recrutador de uma empresa vai acreditar mais no que você escreveu sobre si mesmo ou no que os outros escrevem sobre você?

Ahhhh, mas tem um outro lado da moeda também. Você também pode pesquisar e descobrir coisas interessantes sobre as empresas nas redes sociais. Tem alguma empresa contratando e com vagas abertas? Ela é uma boa empregadora? É uma empresa cidadã? A sua marca é respeitada? Os funcionários se sentem orgulhosos de trabalhar em tal empresa? Ou seja, o mundo das redes sociais funciona para ambos os lados. É por conta disso que aparecem sites como o Glassdoor que permite que as pessoas avaliem seus empregadores, publicando até a lista anual Glassdoor das melhores empresas para se trabalhar, conforme o feedback dos próprios trabalhadores.

Num mundo transparente, aberto e em "real time", as redes sociais se tornaram um território aberto para as empresas e para as pessoas, sejam como cidadãos, consumidores e trabalhadores. Saber navegar e se beneficiar desses novos tempos é uma responsabilidade individual. Não delegue a sua carreira a própria sorte, trace uma estratégia de exposição de suas competências e seus gostos na web. Não acredite mais no poder do currículo bem feito e bonitinho, ele já era.

Fonte: 

http://www.brasilpost.com.br/mauro-segura/jogue-o-curriculo-fora_b_4912654.html?1394988134

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